Recuperações judiciais no agronegócio batem recorde e expõem pressão do juro alto
- Rubens Souza

- Feb 26
- 3 min read
Com a Selic em 15,00% a.a., custo financeiro encurta o fôlego do caixa, amplia risco de rolagem e aumenta a chance de crise em safras com volatilidade de preço, clima e câmbio

Os pedidos de recuperação judicial na cadeia do agronegócio ganharam força em 2025 e viraram um indicador objetivo de estresse financeiro no campo. Dados da Serasa Experian mostram 565 solicitações no 2º trimestre de 2025 e 628 no 3º trimestre, o maior nível da série divulgada pela instituição.
O movimento aparece em diferentes perfis. No 3º trimestre de 2025, produtores rurais pessoa física somaram 255 pedidos, produtores pessoa jurídica registraram 242, e empresas ligadas ao setor fizeram 131 solicitações, de acordo com o mesmo levantamento.
Na distribuição regional do 3º trimestre de 2025, estados com forte base produtiva lideraram o volume, com Mato Grosso e Goiás entre os destaques, seguidos por Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Juro alto, o multiplicador do risco
A alta do custo do dinheiro é o principal fator que acelera crises de caixa. Com a Selic mantida em 15,00% a.a., a despesa financeira cresce, a rolagem fica mais cara, e a margem de segurança diminui, especialmente em operações com grande necessidade de capital de giro, custeio e prazos longos entre desembolso e recebimento.
Na prática, o problema costuma se formar em cadeia, atraso em parcelas, renegociação tardia, crédito mais restrito, garantias mais exigentes, e por fim, a busca por proteção judicial. O alerta é que esse efeito tende a ser mais rápido quando o produtor não monitora margem e caixa com frequência mensal.
Gestão de risco para proteger a rentabilidade
Especialistas em gestão recomendam tratar risco como rotina operacional e não como ação pontual. As medidas abaixo são as mais citadas por áreas de crédito e de gestão de fazendas quando o objetivo é atravessar ciclos de juros altos com menor probabilidade de ruptura.
1. Proteja margem, não apenas preço
O objetivo é garantir resultado mínimo. Isso pode incluir travas parciais e escalonadas de receita, combinando contratos a termo, barter, futuros e opções, conforme o perfil de risco e o calendário de comercialização.
2. Faça stress test do caixa todo mês
Fluxo de caixa projetado de 12 a 18 meses, com cenários de queda de preço, quebra de produtividade, aumento de insumos e aumento do custo financeiro. A decisão precisa acontecer antes do atraso.
3. Renegocie de forma preventiva e alinhada ao ciclo produtivo
Alongar prazos, ajustar amortizações ao calendário da safra, e reduzir pico de desembolso no período de custeio. Renegociação depois do problema instalado costuma custar mais e entregar menos alternativas.
4. Corte custos pelo critério de retorno marginal
Revisar pacote tecnológico, compras e logística com metas simples por unidade, por saca, arroba, litro, hectare. Pequenas perdas operacionais viram grandes vilões quando o juro sobe.
5. Reforce governança e organização de crédito
Separar finanças da fazenda e da família, definir regras de retirada, organizar documentação e indicadores de produtividade. Isso melhora capacidade de negociação e amplia opções de financiamento.
O que monitorar mês a mês
Sinais de alerta no caixa
Saldo de caixa para 90 dias, necessidade de capital de giro, prazo médio de recebimento versus pagamento, peso da dívida de curto prazo no passivo total.
Sinais de alerta na dívida
Custo médio da dívida e indexadores, cronograma de amortizações por trimestre, cobertura do serviço da dívida com margem operacional projetada.
Sinais de alerta no mercado
Margem projetada, preço menos custo total menos custo financeiro, relação de troca de insumos, exposição ao câmbio, percentual da produção já protegida e preço médio travado.
Sinais de alerta na operação
Produtividade estimada versus realizada, variações de clima e impacto no volume, custos fora do orçamento, manutenção, logística e armazenagem.
Fechamento:
O aumento das recuperações judiciais no agro é um recado direto do ciclo atual, com juros elevados, a tolerância do caixa diminui e erros de gestão ficam mais caros. A resposta, para a maioria das fazendas, passa por três pilares, previsibilidade de margem, disciplina de caixa e governança. Quem mede, antecipa, e protege parte do resultado tende a atravessar o ciclo com mais estabilidade, mesmo em anos de volatilidade.
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