O barril em chamas, e a conta no colo do produtor brasileiro
- Rubens Souza

- Mar 9
- 3 min read

A guerra no Oriente Médio já deixou de ser uma crise distante, agora ela bate no tanque do trator, no frete, no fertilizante e no caixa do agronegócio brasileiro. Nesta segunda-feira, 9 de março, o petróleo disparou e o campo entrou em estado de alerta.
A guerra escalou, o mercado entrou em pânico, e o petróleo virou pólvora financeira. Nesta manhã de 9 de março, o Brent saltou cerca de 25% e chegou a US$ 119,50 por barril, no maior estresse desde 2022, com medo de cortes de oferta no Oriente Médio e de uma disrupção prolongada no Estreito de Ormuz, um dos gargalos mais estratégicos do planeta para energia. Não é exagero dizer que o barril virou um míssil apontado para a inflação global.
E quando o petróleo explode, o agro brasileiro não assiste de longe, ele paga a conta. A própria CNA já afirmou que a escalada do conflito pressiona os preços internacionais do petróleo e tende a elevar o valor do diesel no Brasil. Em ofício ao governo, a entidade pediu elevar a mistura obrigatória de biodiesel de 15% para 17% justamente para amortecer o choque. No começo da reação do mercado, o Brent já havia alcançado US$ 84, com alta de cerca de 20% desde o fim de fevereiro. Agora, com a nova disparada desta segunda, o alerta ficou ainda mais grave.
O ponto mais cruel é que o diesel é a veia do agronegócio. Ele move colheitadeira, caminhão, bombeamento, logística e parte da armazenagem. Segundo análise publicada no Canal Rural, a defasagem do diesel brasileiro frente ao mercado internacional girava em torno de 58%, podendo chegar a 64% nas refinarias da Petrobras, e a paridade exigiria alta superior a R$ 2 por litro nas refinarias. Em português claro, o campo já estava sentado em cima de um barril de pressão, e a guerra só acendeu o fósforo.
Mas o estrago não para no combustível. A CNA aponta que o conflito mexe com ureia, frete, seguro marítimo, oferta global e volatilidade. O documento destaca que o Oriente Médio responde por cerca de 20% do comércio internacional de petróleo e gás natural, por 30% dos fertilizantes comercializados no mundo e por 25% a 35% do comércio global de amônia e ureia. Também observa que 60% a 80% da produção dos nitrogenados vem do gás natural. Resultado, gás mais caro vira fertilizante mais caro, e fertilizante mais caro corrói margem no campo.
No caso do Brasil, há uma ferida adicional, a dependência de insumos e da logística internacional. A CNA classifica fertilizantes como a cadeia mais exposta ao choque geopolítico, exatamente por concentrar risco em gás natural, ureia, frete e seguro marítimo. A entidade também mostra que as importações do agro brasileiro vindas do Irã somam cerca de US$ 11,9 milhões, sendo 79% fertilizantes, sobretudo ureia. É um valor relativamente pequeno em termos absolutos, mas o problema real não é só o Irã, é o efeito dominó do conflito sobre toda a formação global de preços.
Do lado das exportações, o Oriente Médio continua sendo um cliente importante, e qualquer turbulência logística pode doer. Segundo dados citados pelo MDIC e reproduzidos pelo Canal Rural, cerca de 32% das exportações brasileiras de milho vão para países do Oriente Médio. A região também absorve aproximadamente 30% das exportações de carne de frango, 17% do açúcar e 7% da carne bovina do Brasil. Ou seja, não se trata apenas de custo de produção, trata-se também de risco comercial, atraso em rotas, prêmio de seguro e rediscussão de embarques.
A mesma análise da CNA mostra que o Irã, sozinho, não é gigantesco para toda a pauta brasileira, responde por cerca de US$ 3 bilhões das exportações totais do Brasil, algo como 0,8%, mas tem peso muito concentrado no agro. Das vendas brasileiras ao Irã, cerca de 99% são do agronegócio, com destaque para milho, soja e açúcar. Isso significa que o efeito direto pode ser localizado em algumas cadeias, mas o efeito indireto, via petróleo, frete e fertilizante, é muito mais amplo e muito mais perigoso para o produtor brasileiro como um todo.
Nos mercados agrícolas globais, a contaminação já começou. A Reuters informou nesta segunda que o óleo de palma da Malásia subiu 9%, o óleo de soja em Chicago atingiu o maior nível desde 2022, o trigo foi ao maior patamar desde junho de 2024 e o milho chegou à máxima em 10 meses. Isso revela o tamanho do terremoto, energia cara puxa biocombustíveis, mexe com grãos, pressiona custos e redesenha margens. O agro entra num corredor estreito, vender pode até ficar melhor em algumas commodities, mas produzir e escoar fica mais caro.
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